Coisa de “POBRE” ou Sustentabilidade?

Sei que após esse texto, muitas piadas virão, muitos podem dizer que eu que seja pobre sozinho, que o que eu escrevi é hipocrisia e que tudo o que tem nesse texto é inaplicável. Eu só tenho a concordar. Afinal… Se não fosse assim, o mundo seria outro e não estávamos preocupados com a tal da SUSTENTABILIDADE…

Já há muito venho ouvindo e lendo histórias, textos, piadas e mais uma centena de comentários, criticando, menosprezando e conceituando algumas ações, costumes e hábitos, como “coisa de pobre”. Nessas horas eu fico me perguntando porque aquele que se diz “Rico” fala tanto em sustentabilidade, se é o “pobre”, o ser mais auto-sustentável que eu conheço e ainda assim, o mais criticado?

Daí passei analisar, de fato, estas tão chamadas “Coisas de pobre” e trouxe aqui algumas delas:

Juntar o final dos sabonetes para fazer um novo.

Isso é sustentabilidade. Afinal, o desperdício é um dos alicerces da poluição. O excesso de produção, a utilização de energia para gerar mais sabonetes, os gases emitidos na atmosfera para fabricar e transportar o produto (leia-se, mais sabonetes, mais tinta para embalagens, papel, cola, gráficas para imprimir a embalagem, plástico para laminar o papel de cada rótulo etc.) e mais uma série de implicações que surgem, quando, não uma, mas milhares de pessoas decidem jogar um sabonete, com 90% de uso, fora, só porquê foi implantada na sociedade burra, a idéia de que isso é coisa de pobre. No final, os 10% restantes, multiplicados por todos os que descartam estes mesmos 10% , daria uma quantidade, talvez, considerável, acredito eu, de sabonetes não desperdiçados. Evitando a fabricação desnecessária de um grande quantidade de sabonetes, o que diminuiria a quantidade de poluentes gerados, pela geração de cada sabonete economizado.

Por água no detergente para render mais.

Isso é sustentabilidade. Cada gota de detergente concentrado, como os que são vendidos com a idéia de gerar economia, pode render até três vezes, ou mais, se diluída. Mas vem um piadista cômico e faz todo mundo ficar com vergonha, COM VERGONHA de diluir o detergente, pois assim ele será considerado “pobre”. Entretanto, os esgotos recebem cada vez mais detergente concentrado, as indústrias produzem muito mais detergente do que o mundo realmente precisa, tudo isso sendo levado às fossas de dejetos da humanidade, as quais, infelizmente encontram-se muitas vezes em rios, oceanos etc. Ah! Mas hoje há estação de tratamento de esgoto. Com certeza gastando muito mais energia (leia-se energia como força de trabalho, seja ela natural, química ou por meio de eletricidade) para limpar a merda que o complexado por não parecer pobre, gera com o desperdício.

Reaproveitar roupas velhas para fazer pano de chão.

E porque que devemos doar roupas rasgadas, com o elástico esgarçado e sem botões? Quem foi que disse que doar lixo é caridade? Talvez, para aqueles que não usam mais as roupas da coleção passada, mas mesmo assim as deixam no armário, mesmo que ainda novas, para ostentar um “Closet” recheado de relíquias da moda, faça sentido doar todas as peças, mas doar aquilo que não serviria para ninguém vestir? Isso é coisa de safado querendo posar de Irmã Dulce.

Não. Não é louvável doar trapos. Entretanto, comprar pano de chão, o qual foi produzido por um indústria têxtil, mesmo que com restos de tecido de saca de açúcar e que por sua vez gastou energia para uma máquina “owerlock”  fazer o acabamento da bainha, combustível para ser transportado, sacola de plástico para ser embalado ou etiqueta para identificação do produto é coisa de RICO! Coisa de quem está realmente preocupado com a “sustentabilidade” e que doa roupas que não servem mais para quem mais precisa de trapos.

Pois bem. Quando não existia indústria de pano de chão e utilizávamos toalhas, roupas, e lençóis velhos para limpeza da casa, quando fazia-se coxas de “aproveitamento de retalho” e “apregávamos” botões, não precisávamos fazer campanhas em prol da sustentabilidade.

Reaproveitar copos de extrato de tomate.

A pergunta é: porque jogar fora? Alguém, um belo dia, inventou que era “falta de educação” servir água, suco, ou qualquer outra bebida em um copo de extrato de tomate… Eu até hoje me pergunto como é que o copo do extrato de tomate poderia me ofender de algum modo…

Em um mundo onde ladrões justificam um assassinato alegando “reação” da vítima e possuem penas abrandadas, programas de TV exploram os momentos mais infelizes de certas pessoas para ganhar audiência, alunos xingam professores em escolas, pessoas vão a público chamar negros e homossexuais de promíscuos e são eleitos senadores, um cidadão diz que “comeria” a mãe e seu bebê e todos o chamam de comediante, protestando a seu favor (nem toco no assunto: censura. Pois todos devem poder dizer o que quizerem, mas isso não quer dizer que o que se diz esteja correto e deva ser sempre aplaudido, só por ter sido dito), políticos destroem toda uma nação, em prol de enriquecimento próprio e continuam sendo eleitos, sem que nenhum protesto seja, de fato, efetivamente incisivo em seu detrimento, pessoas manifestam seu desprezo pelas menos abastadas financeiramente, é inconcebível acreditar que em tal cenário, um copo de extrato de tomate possa me ofender de alguma maneira.

À bem da verdade, jogar fora um utensílio bom, sem defeitos, em perfeito estado de uso e de vidro, o qual, por assim o ser, consumiu muita energia para ser gerado, só porque um ser desprezível disse que reaproveitar um copo de extrato de tomate, ou requeijão cremoso, ou qualquer outro similar, seria coisa de pobre, isso sim é uma grande ofensa à minha inteligência. É subestimar meu discernimento entre o que é falso e verdadeiro, o que é correto e o que é falácia.

Até mesmo porque, reaproveitar é sim, sustentabilidade.

Mas não para por aí. Pois além de se criar uma cultura rasa, onde é execrado o comportamento do “pobre”, o qual é, em muitas das vezes, auto-sustentável por pura necessidade, mesmo não querendo o ser,  ainda desenvolveu-se o folclore de que devemos ter sempre objetos novos. Substituir o que está funcionando, por algo que funcione igual, porém, com um detalhe a mais.

Desta forma, seguimos com o rebanho do consumismo: compramos um novo celular, com câmera de 5.0 mega pixels e jogamos fora o anterior com câmera de 4.0 mega pixels, o qual ainda possuía todas as funcionalidades em prefeito estado; compramos uma bolsa com estampa de onça, até mesmo porque já matamos quase todas as onças para fazermos bolsas, nos restando apenas copiar a estampa mesmo, aposentamos a bolsa antiga, com estampa de zebra, nova e sem nenhuma avaria; compramos uma televisão de 60 polegadas, pois é feio ter em casa a de 42″ igual a do “pobre”, já que ele pode comprá-la no crédito e com o lançamento da de 60″, o preço acabou ficando mais acessível.

Compramos mais coisas que podemos comer, mas a “fartura” é o que importa. Compramos mais do que podemos usar, mas ter para mostrar é coisa de “rico”… E assim segue o mundo que “luta” contra a fome, a pobreza e a desigualdade. Um mundo que produz infinitamente mais do que o que necessita, mas mesmo assim encontra espaço para vender cada vez mais e disputar PIBs entre nações, as quais, muitas vezes possuem problemas de fome, pobreza e desemprego. Onde, se for preciso diminuir a vida útil uma bateria de laptop, para que se compre laptops à toda hora, assim é feito, mas junto com uma campanha de SUSTENTABILIDADE, é claro! Onde é “Chique” gastar porque pode-se pagar por tal.

Enquanto for “CHIQUE” a cultura do “eu faço porque eu posso pagar por isso”, precisaremos sim, falar em sustentabilidade, pois em um mundo onde é “chique” falar em sustentabilidade, o “ser” “Chique” é o menos sustentável dos seres.

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4 Respostas

  1. Conscientização ajuda, mas o problema vai tão além dessas pequenas ações cotidianas, como você tb comenta em sua conclusão, que só mesmo uma mudança radical em nossa cultura de consumo para enxergarmos resultados sensíveis. Propor as pessoas: Fiquem à margem do que é “cool” é pedir demais nesse ponto em que estamos. Estar na moda é mais importante, portanto, solução seria pôr na moda a customização individual, o faça você mesmo, o reaproveitamento. Valorizar o que dura e o que de fato tem qualidade ao invés do que é apenas novo e efêmero.

    A princípio pode parecer que estamos vivendo um pouco dessa transformação, mas sinceramente, tem que ser muito cego pra não ver que sustentabilidade hoje é apenas motor para gerar novos desejos de consumo, como por exemplo, as ecobags – aquelas super sustentáveis feitas por trabalho escravo no Vietnã – ou então, para movimentar uma série de congressos, cursos, feiras e até site de compras coletivas específicos para tratar e vender do assunto.

    Falamos na verdade, não só do medo de ser confundido com pobre e do pobre deixando de ser sustentável pra tentar ter “classe”, mas dessa neurose da insatisfação crônica. Tem gente desesperada pelo iPhone 5, mas por vários motivos que não vêm ao caso aqui, decide-se adiar o lançamento da versão 5, o que fazer? Lançar um iPhone 4S, aparelho praticamente igual ao anterior, só pra alimentar essa fome da “nova versão”. É o “Substituir o que está funcionando, por algo que funcione igual, porém, com um detalhe a mais” que você estava falando…

    E o facebook? Que está aí no auge, funcionando, se atualizando, tem gente que nem se acostumou com ele ainda, mas agora, a massa cool, já está ávida pra saber o que é que vem por aí. “Ah.. chegou a 800 milhões de usuários, não presta mais.”
    Esse exemplo talvez não seja exatamente ligado à sustentabilidade mas mostra claramente o quão doentio é essa inquietação, que nem o que está ótimo é o bastante mais. Ótimo, mesmo, só o caro e não-sustentável novo.

    obs: ótimo, pra mim, são posts como esse!! =)

  2. “Coisa de pobre” é um conceito que vem de uma época em que sustentabilidade não era encarada como algo importante;essa ideia se integrou e se ‘caco antibizou’ pela sociedade. Acredito que a atual geração (que prega e pensa tanto no sustentável) nunca parou para fazer uma análise como essa que você fez agora. Os eco pensadores buscaram outras novas – e às vezes mirabolantes, mas não menos necessárias – soluções, quando a resposta estava ali, na cara, simples.

    Gostei da reflexão.

  3. Sensacional e de uma lucidez ímpar!

  4. Boa reflexão,
    Uso o sabonete até o fim, diluo o restinho do detergente, só troco de celular, computador e de roupas quando estragam, mas tudo tem um limite:
    Não vou abdicar de um mínimo de conforto e estética no meu lar, ficar em um ambiente feio, sem conforto e “brega” em nome da sustentabilidade e economia:
    Prefiro ser “chic”, gastar R$20,00 a R$50,00 a cada 5 anos e comprar com eles: copos bonitos + panos de chão eficientes. Meus copos muito belos (uns cabem 500 ml, outros são decoradinhos) têm 5 anos, já os panos de chão têm 2 anos.
    Se a cada 2 anos eu não puder trocar de panos de chão (além de usar as camisas velhas de vez em quando! hehehe) e a cada 5 não puder trocar de copos bonitos, para que ??? Para ficar usando o feio, fraco? Ineficiente?

    Mês passado troquei meu notebook, tinha 6 anos de vida: não tinha mais bateria, leitor de DVD, cooler pifava e o cpu desligava… Comprei um “chic”: Vaio I5, coisa linda e eficiente, bom demais!
    Minha TV é de tubo, também com 6 anos (época que mudei de cidade a trabalho). Mas muito pouco a assisto, a TV aberta é um lixo e a paga não vale a pena pois assisto pouco.

    Sinceramente, dou gargalhadas com essas piadas de pobre (achei esse blog procurando-as), minha família praticava muito quando eu era criança. Mas, odeio várias dessas economias fúteis, brigo com minha esposa quando quer economizar o restinho do feijão/macarrão para a janta. Afinal, “tem tanta gente passando fome, logo não podemos desperdiçar”.

    Ô PENSAMENTO DE POBRE! A culpa de ter desabrigados passando fome não é minha nem de ninguém especificamente. São gerações e gerações que tiveram oportunidades (mesmo que poucas, ou muitas, dependendo do lugar) e as desperdiçaram, deixando um legado de pobreza para seus filhos, espero que estes as aproveitem. Hoje estamos num estágio da economia que é INCONCEBÍVEL alguém dizer que não tem oportunidade de trabalho.
    É preguiça.
    Se há fome no nordeste, no Maranhão por exemplo, a culpa é do clã Sarney? Não! O povo lá acostumou-se a esperar milagre do céu ou cesta básica dos “coronéis” da terra. É só olhar as capitais e os novos agricultores que vemos que de lá saem grandes professores, engenheiros e muito produto (frutas principalmete) até para exportação.

    No Brasil inteiro há milhares de oportunidades na construção civil, transporte rodoviário, etc. Só em Campo Grande/MS a defasagem nas construções da cidade é de 3000 pessoas! No transporte (caminhoneiro) em Joinvile é de 2000!
    Não é o meu restinho de comida indo para o lixo que seria “REQUENTADO, fazendo um mexidim” à noite que vai resolver o problema da fome no Brasil.
    Não é o copo de requeijão com aquela data da validade “super brega, coisa de pobre!!!” no fundo, e que vai para o lixo (que deveria ser reciclado, e ainda voi investir nisso) que vai deixar nosso mundo mais limpo.

    Sustentabilidade, reciclagem sim. Quando eu mudar deste apartamento para uma casa, farei adubo com lixo orgânico no quintal, planterei leguminosas, criare duas ou três galinhas numa gaiola. Alimentarei-as com o mesmo lixo orgânico. Já levo sacolas para fazer compras. Isso fará muito mais para o mundo que economizar migalhas.

    Nós vivemos num mundo que é abundante para TODOS. No mundo sobra comida e muitas outras coisas. Hoje há muito mais mortes por excesso que por falta de comida EM NÍVEL MUNDIAL!!!

    Sustentabilidade sim, mas economias de pobre não! hehehe

    Mesmo buscando reaproveitar várias coisas aqui em casa, evi

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