Um breve desabafo…

Volto a escrever, após uma longa pausa, pois andei ocupado com alguns problemas profissionais nestes últimos meses. Aliás, é disto que pretendo falar. É sobre isso que venho pensando há um bom tempo.
Não se trata – o que pretendo falar – de problemas profissionais meus, ou de quem quer que seja. Trata-se do problema profissional que assola nossas vidas. Pode até parecer bastante enfadonho e até mesmo apocalíptico essa colocação, mas é isso mesmo o que vejo.
Para não escrever durante meses e resultar em um texto imenso, e pode ter certeza, este já será um texto imenso, focarei minha análise em pontos bem específicos de nossa história, bem como no Brasil, porém não me furtarei de citar o mundo em momento algum, caso seja pertinente.

Como já havia dito, penso e critico a forma como as coisas andam em termos de “profissionalismo” desde uns tempos para cá. Mas entendo que esta crítica seria redundante, caso levasse em consideração o eterno efeito épico da nostalgia, onde, na Grécia, filósofos pós-socráticos, criticavam seus antepassados como Sêneca em “A brevidade da vida”, que criticou a sociedade, por esquecer os tempos em que prazeres mínimos e preocupações muito mais pertinentes do que as atuais – em seu tempo – , porém esquecidas, tornavam a vida tão rasa e intragável ou como Schopenhauer que em “Pererga e Paralipomena” fazia um “ode” aos tempos idos do real estudo, não superficial da lógica e das línguas passadas, fazendo ferrenho discurso contra a forma de pensar, estudar e escrever “hegueliana“, a qual era a mais atual corrente filosófica de sua época. Sem contar com nossos pais e avós, que sempre têm na ponta da língua, expressões como: se fosse antigamente…

Não. Prefiro me ater a uma análise mais factual e, talvez, mais sólida até. Prefiro atiçar-me à história, à sociologia, à política e somar tudo isso à minha percepção, mesmo que, talvez, equivocada, da realidade.
Falo, pois, de algo que vejo diariamente quando vou trabalhar, quando ligo a TV, quando ando na rua, quando navego na “net”. Falo da falta de compromisso, da falta de preparo, dos incontáveis acontecimentos que me levam a perguntar-me: o que está acontecendo? Falo, também, de uma realidade breve, a qual há breve tempo acontece, mas que já reflete em nosso dia-a-dia: para uns, o resultado do capitalismo, para mim, o retrato de um mundo desordenadamente burro. E não confundam uma coisa com a outra, pois, por mais que elas pareçam resultado, uma da outra, não necessariamente o são.

Começo este texto, portanto – avisei-lhe, caro leitor, que iria ser longo – citando um fato atual, onde, uma grande empresa – Nokia – , envia, deliberadamente, uma mensagem de desativamento de um blog, o qual a servia favoravelmente e com grande resultado positivo. Os motivos os quais resultaram em tal atitude ainda não foram esclarecidos, porém, completamente irrelevantes, haja vista, o pedido de retratação publicado pela própria empresa em questão.

Para deixar mais claro o meu ponto de partida para esta reflexão, trata-se do setor jurídico da empresa, responsável por “vigiar” todas as informações, “oficialmente ou não”, publicadas na web, que, em um devido momento qualquer, identificou o blog NokiaBR, como, Deus sabe lá como, prejudicial à imagem da marca, enviando-lhe assim, um comunicado extrajudicial, solicitando a sua desativação.

O proprietário do blog por sua vez, obedeceu de imediato tal solicitação, sem nem questionar o motivo, sendo que a empresa que o “vetou”, fora a mesma empresa que já havia lhe convidado para eventos, pagando-lhe até passagens como cortesia, bem como, em outras ocasiões, enviou-lhe aparelhos para teste e releases para publicação. Sendo, portanto, notória a aprovação de tal “parceiro” na web.

É fato de que se trata de um sistema falho de comunicação interna, mas trata-se também de um despreparo absoluto para a função de “vigia”, a qual fora demandada ao cidadão, funcionário da Nokia, seja ele, terceirizado ou não.

Trata-se também, de algo muito maior que isso. Trata-se de descaso com a própria profissão, no que compete ao encarregado de supervisionar e examinar os textos publicados sobre a marca. Trata-se da completa falta de compromisso para com tais contratações.

Mas o caso em questão não é uma empresa que possui milhares de funcionários e um destes cometeu um erro. Falo de algo que é presente em todo lugar: pessoas despreparadas para exercer suas funções.

Se formos tentar entender um pouco de tudo isso, que peguemos então uma carona na história e caminhemos juntos desde o início do século passado, onde marcas começaram a surgir timidamente se comparado aos tempos atuais. Onde havia poucos fabricantes para cada item a ser consumido, onde o consumidor escolhia entre esta ou aquela opção de compra, sendo muitas vezes, apenas “esta” a opção de compra.
De lá para cá surgiram diversas marcas para cada produto. Nós passamos a ter de escolher, ao invés de duas ou três marcas para cada produto, entre centenas delas. O que, para o ato da compra, era necessário apenas a “qualidade” como fator diferencial, passou a ser, para a marca, a velocidade com a qual aparecia à frente do consumidor. Com tantas marcas, a qualidade se nivelou por baixo e o preço passou a ser um determinante fator de escolha.

Junto às propagandas e diversos mecanismos e estratégias de mercado, o produto passou a ter a necessidade de se tornar mais barato, onde os anúncios publicitários eram responsáveis por torná-los mais interessantes, o seu preço, por torná-lo mais atrativo, a facilidade de encontrá-lo tornava-o mais ou menos popular. Não era mais a qualidade que importava, mas sim, quão mais sedutor era seu anúncio, mais desejada sua imagem, mas possível sua compra, mais atrativo seu argumento.

A saturação deste modelo de venda, é claro, gera a necessidade de resgatar os diferenciais, invocar a qualidade, ressaltar a personalidade de cada produto.

Personalidade + diferencial:

Estratégias de posicionamento de mercado passam a assistir as marcas. O Marketing ganha uma força monstruosa em todos os setores e passa a comandar, definitivamente, os rumos das empresas, guiando-as, como se um GPS fosse, aos caminhos mais lucrativos e promissores.

Eis que o “câncer”, outrora já eminente, começa sua “metástase”. Não mais importava o que, nem como se iria atingir as metas traçadas, apenas, era necessário alcançá-las.

Assim foram todos, marcas, países, pessoas… Todos queriam alcançar metas, todos querem alcançar metas.

Se o homem é produto do seu meio, este é um bom exemplo disso, se não é, esta é uma anomalia social. Nada interessa mais a ninguém hoje, aliás, é o que parece ser o movimento “tô nem aí” do mundo. O fato é que parece todos seguirem esta regra: não importa. Também seguida de outra regra: quero bater minhas metas.

Atrás disso vem o Brasil, querendo bater suas metas. Metas de crescimento, metas de ganho de confiança dos investidores, metas de aprovação nas escolas, metas de ingresso em faculdades e em formação de profissionais. Metas econômicas, de visibilidade mundial, de deixar de ser um país “emergente” para se tornar um país de “primeiro mundo”. Metas…

O que parece a ninguém, ou, ao menos, boa parte dos brasileiros, não importar é: como “bater” todas as suas metas e mantê-las “batidas”. Ou seja: como sustentar o patamar que alcançou.

São “CPAs” que formam alunos que deveriam estudar dois, três, ou até mais anos, em poucos meses. São faculdades que abrem sem nenhum preparo para ensinar e aprovam alunos sem nenhuma base para aprender suas profissões; são profissionais que inundam o mercado sem nenhum preparo para exercer suas funções; são empresários que não sabem gerir suas empresas e empregam pessoas as quais não podem avaliar; são pessoas que não podem conceituar pessoas, conceituando-as; governantes que não estão preparados para governar; legisladores que escrevem leis inconstitucionais; médicos que não possuem a mínima condição de clinicar, examinar, operar, receitar… Daí, vemos empresas que abusam de seu poder financeiro e da abertura que recebem em diversos países “terceiro-mundistas”, esculhambando a vida de todos os usuários de seus serviços, pois estes não sabem nem por onde, nem o que, nem como, muito menos que podem reclamar seus direitos.

Falo, portanto, de um mundo imediatista, de uma sociedade alucinadamente desnorteada, que apenas corre para bater metas e alcançar alguma coisa que ninguém sabe o que é, mas todos querem atingir.

O que ocorre então? Tudo muda novamente.

Imersos nessa homérica desordem profissional, agora falando apenas do Brasil, pois, se em outro lugar estiver acontecendo o mesmo, não posso afirmar com certeza, surge, empresarialmente, a necessidade de se destacar por outros caminhos, que não mais são apenas os de vender antes que os demais concorrentes o façam. A web (Twitter, Youtube, MySpace, Flickr, WordPrass, etc.) e as demais redes internacionais de comunicação, a força das, hoje, já imensas corporações mundiais, a diversidade astronômica de marcas, o poder de compra global, a “mundificação” das sociedades e a, agora, mais do que nunca, a necessidade de ser escolhido pelo consumidor, trazem uma nova realidade que se alastra: a qualidade em custo X benefício real e absoluto de cada produto ou serviço oferecido. Na verdade, este é o começo de uma nova era comercial, onde desde o profissional, até a empresa, precisam realmente produzir algo melhor do que o outro, só que não mais na escala de proporção “empresa para empresa” e sim, “pessoa para pessoa”, algo que o mundo nunca havia visto antes, e que exige de cada um, a necessidade de voltar a se aprofundar muito mais do que estamos acostumados a fazer, em nossa área de atuação, caso deseje este profissional, se destacar perante os demais, no mercado.

Em suma, nada mudou no mundo, no que diz respeito aos ciclos vividos pelas sociedades, porém, muito do que conhecemos, ganha hoje, uma roupa que nunca fora antes vestida.

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Uma resposta

  1. Jader,

    Voce foi, simplesmente, brilhante e certeiro em sua analise da situação e tempo atuais.

    Parabens!

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